
Reconheci o livro como um dos muitos que o meu pai me havia recomendado e eu, por descrença pueril, alegava que "sim, parece interessante...mais tarde lerei", nunca chegando a cumpri-lo. Talvez por uma birra de "santos da casa não fazem milagres", agarrei-me ao livro, desta feita por ter sido recomendado por outra pessoa.
Estupidez minha por tanta demora!
Abri e saltou-me esta primeira frase que me deixou boquiaberto: "Brilha o ceu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido."! Fiquei estarrecido com tal adjectivação e descrição, pus-me goloso e eis que surge a segunda frase: "Debaixo de sombras irisadas leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer."...pasmo-me e mais me pasmo com o restante parágrafo: "Não consigo comprazer-me desta mediocridade dourada, pese o convite e o consolo do poeta que a acolheu, Também a mim, como ao orador, amarga o ócio, quando o negócio foi proibido. Os dias arrastam-se, Marco Aurélio viveu, Cómodo Impera, passei o que passei, peno longe, como ser feliz?".
Nenhum livro me tinha cativado à sua leitura tão rapida e fortemente. Devorei-o!
O resto do livro é directo, tem acção, tem vida, tem mais do que apenas construções filosóficas como estas primeiras linhas, e é isso que torna o livro belo! Tem a elegância de uma descrição atenta e integradora sem cair no nefasto do excessivamente pormenorizado; tem o cativante de uma história bélica, conflituosa e corrupta sem o banho de sangue característico; tem, ainda, a cultura e projecção Histórica da época e tem, também, a língua portuguesa no seu melhor com construções de alguém que não escreve apenas por recreio, mas porque sabe.
Recomendo vivamente!